Faltam profissionais da saúde para atuar na linha de frente no combate ao coronavírus no RS

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O enfrentamento à Covid-19, desde o começo, vem sendo marcada por alguma preocupação mais pontual e acaba despontando entre tantas outras questões. No início da pandemia foi a escassez de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) como máscaras e face shields. Depois foi a corrida pelos respiradores ou ventiladores mecânicos hospitalares. Na esteira, também se manteve os olhares para o aumento no número de leitos críticos em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), algo que voltou a ser tratado neste começo de 2021, quando os hospitais lotaram ligeiramente devido ao enorme número de infectados pelo novo coronavírus.


Agora, além de lidar com esta lotação e falta de insumos como oxigênio e medicações para intubação, os hospitais e governos municipais estão com dificuldades em contratar mais profissionais de saúde para atuar na linha de frente, algo que já vinha sendo alertado há meses por especialistas e entidades de classe, e que ainda esbarra em questões estruturais. Em um cenário dramático, quem já está trabalhando, está tendo que dividir atenção com um número ainda maior de pacientes e até mesmo profissionais sem a devida especialização estão sendo improvisados no atendimento a quadros graves da Covid-19.


Um exemplo desta necessidade de contratação, desde o início da pandemia, o Hospital Moinhos de Vento abriu 50 novos leitos de terapia intensiva, sendo 40 só em 2021. São vagas de retaguarda, previstas no plano de ação elaborado em fevereiro de 2020, pelo Comitê de Enfrentamento do Coronavírus, antes mesmo do primeiro caso confirmado no Rio Grande do Sul.


Para cuidar dos pacientes, desde o último trimestre de 2020, foram contratados 380 profissionais, entre médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas e outros colaboradores -, além do preenchimento de vagas regulares do quadro da instituição. “Para cada dez leitos de UTI, a instituição precisa contratar aproximadamente mais 60 profissionais de diferentes especialidades. E, ainda, equipes de alimentação, limpeza e esterilização. Contratamos 330 novos colaboradores e ainda temos 280 vagas abertas, com dificuldade para preenchê-las”, revela a superintendente assistencial do Moinhos, Vania Röhsig.


Em nota, o Sindicato dos Hospitais e Clinicas de Porto Alegre (Sindihospa) afirma que o “agravamento da pandemia trouxe uma demanda muito expressiva para os hospitais, que estão tendo de fazer adaptações em suas estruturas para acolher as pessoas que necessitam de atendimento”. A entidade ratifica o empenho dos seus associados em ampliar espaços para o tratamento da Covid-19, por meio da criação de novos leitos de UTI e enfermaria e mobilização de profissionais de outras áreas nos hospitais da Capital.


Ao mesmo tempo, informa o comunicado, as instituições vêm abrindo novas vagas para contratação de funcionários, em diversos setores, acompanhando esse crescimento. Para cada 10 leitos de UTI abertos, as instituições necessitam de cerca de 50 profissionais. Os postos que requerem maior especialização, como de terapia intensiva, têm exigido maior tempo para seu preenchimento.


Urgência e consequência

O presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers), Carlos Isaia Filho, diz que “ultimamente, a necessidade é tremenda” por um médico intensivista e por não conseguirem preencher estas vagas e esta situação está acarretando em sobrecarga. “Um profissional de UTI fica responsável por acompanhar dez pacientes. Agora é mais. E o profissional fica mais estafado, com mais preocupações”, aponta.


Isaia afirma que muitos destes profissionais intensivistas contraíram covid e também houve um grande número de profissionais desta estirpe indo a óbito, o que acaba pressionando ainda mais a situação. “Hoje (quarta-feira) foram mais dois da linha de frente que morreram”, lamenta o presidente do Cremers.


Para contornar esta situação, ainda que de forma provisória, o Cremers tem apoiado que médicos de especialidades afim à medicina intensiva sejam empregados para atuar nas UTIs. “Temos muitos anestesistas, que por causa de suas atividades a fim, estão trabalhando e atuando na tentativa de dar um suporte. Mas um ginecologista não pode, por exemplo, atuar nestes leitos, mas pode ajudar em outros pontos do hospital”, observa.


Na enfermagem, a situação é semelhante. Segundo a conselheira do Conselho Regional de Enfermagem do Rio Grande do Sul (Coren-RS), Fernanda Borkhardt, o trabalho em condições caóticas está acarretando em iatrogenia, termo utilizado para qualquer manifestação clínica que não seja consequência natural da doença do paciente. “A enfermagem tem a obrigação legal e ética de não aplicar a medicação depois de conferida a prescrição, em caso de incorreção. Mas tem profissional dobrando a carga horária, tem enfermeiros assumindo maior quantidade de pacientes. E enfermeiros e técnicos sem a devida experiência. Isso acaba induzindo o profissional a erros”, admite Fernanda.


A falta de enfermeiros intensivistas também têm sido um entrave ao preenchimento das vagas, agravando a sobrecarga do profissional. “Não adianta, eu até posso ter a pós em UTI, mas não posso ser colocado numa UTI e assumir 3 pacientes graves sem a devida experiência. Eu posso sim, mas preciso ser capacitada”, explica a conselheira do Coren.


Os fisioterapeutas com especialização em fisioterapia hospitalar também estão sendo bastante demandados e assim como na medicina e na enfermagem, precisam ter esta qualificação para atuar. Não se trata de uma formação obrigatória, mas que qualifica o atendimento, já que são eles que muitas vezes acabam operando os respiradores nas UTIs.


“Somos profissionais generalistas. Mas para fisioterapia hospitalar, precisamos de uma especialização. Como a situação é nova, todos precisamos aprender. Os profissionais estão dando conta pelo aspecto técnico, obtido na graduação. Mas temos realizado capacitações”, resume o presidente do Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional da 5ª Região (Crefito-5), Jadir Camargo Lemos. “Hoje é um fisioterapeuta para cada dez leitos de UTI e em alguns hospitais, suas áreas de internação foram transformadas em leitos críticos.


E cada um dos pacientes precisa de duas a três intervenções de 40 minutos. Ainda estamos observando que está dentro do possível. Mas se a pandemia continuar fora do controle, as coisas estarão difíceis, assim como para a enfermagem e a medicina”, pontua.


Dificuldades estruturais agravam situação nos municípios

O presidente do Conselho dos Secretários Municipais de Saúde do Rio Grande do Sul (Cosems) e secretário da pasta em Canoas, Maicon Lemos, relata que seus colegas têm reportado dificuldades nas contratações. "Nós temos ainda registrado as dificuldades dos municípios em contratar médicos. É a principal reclamatória dos municípios gaúchos. Depois vêm os profissionais de enfermagem”, frisa.


Segundo Lemos, a situação já era uma dificuldade do Sistema Único de Saúde (SUS) antes da pandemia e que piorou. “No interior, muitos dos médicos que estão nas unidades de saúde e unidades de pronto atendimento (UPAs) foram deslocados para os hospitais, deixando a rede de atenção básica sem assistência. Nas regiões metropolitanas há a mesma dificuldade, mas em menor grau”, acrescenta o secretário.


Lemos afirma que em relação aos médicos, o Cosems já vem atuando junto ao Ministério da Saúde para que se reforce o programa Médicos pelo Brasil. “Para que dar mais atratividade aos profissionais para trabalhar no interior”, justifica. O presidente do Crefito-5, Jadir Camargo Lemos, diz que muitos municípios também foram surpreendidos pela pandemia. “Temos dificuldades em cidades de médio e grande porte do interior, que não tinham essa estrutura para atender. Estamos observando. Fizemos um cadastro de profissionais”, informa.


O presidente do Cremers, Carlos Isaia Filho, lamenta a falta de profissionais, mas ele assegura que estavam sendo formados profissionais conforme a demanda existente no mercado. Mas que nesta situação de agravamento da pandemia, não há como suprir de imediato as vagas em aberto. “Não se consegue capacitar um médico para esta atividade (em UTI) em uma semana”, defende.


Um levantamento do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), realizado em maio de 2020, antes do agravamento radical da pandemia, o déficit de enfermeiros e técnicos de enfermagem especializados em UTI, durante o período inicial da pandemia, já estava em torno de 17 mil em todo o país, que segundo a conselheira do Coren-RS, Fernanda Borkhardt, resultado da falta de valorização da profissão.


“O baixo salário pago, veio estourar justamente agora na pandemia. Tem 20 anos que lutamos por um piso salarial e uma carga horária de 30 horas semanais. A pandemia escancarou os problemas. Muitos profissionais morreram com o vírus por causa de R$ 1.300 reais, como os técnicos, e alguns enfermeiros por R$ 2.300, que além da graduação, precisam buscar qualificação permanente”, conclui a enfermeira.




Com informações Correio do Povo